STJ admite apelação adesiva no processo penal — novidade que muda o cálculo de recorrer ou não
Agravo em Recurso Especial nº 3.271.753 – SC (2026/0201068-8) — decisão monocrática, Rel. Min. Ribeiro Dantas (STJ). Decidido em 02/07/2026. Publicado no DJEN/CNJ em 06/07/2026.
O que foi decidido
Uma ré foi condenada a 5 anos por tráfico e, em apelação do Ministério Público, teve a pena aumentada para 6 anos e 8 meses, com regime fechado. A defesa tentou um recurso adesivo (aproveitando o prazo do recurso do MP para também recorrer, mesmo sem ter recorrido de forma independente) — mas o TJ-SC recusou por entender que essa modalidade "não existe" no processo penal. O STJ discordou: reconheceu que a apelação adesiva é cabível na esfera penal, por aplicação subsidiária do art. 997, §2º, do CPC (autorizada pelo art. 3º do CPP), e determinou que o TJ-SC faça o exame de admissibilidade do recurso.
Tese fixada
O recurso adesivo é cabível no processo penal em favor da defesa, por aplicação analógica do regramento processual civil — não é um recurso novo, é apenas uma forma diferente de interpor um recurso que já existe, sem incompatibilidade com os princípios do processo penal.
Por que importa
Isso muda um cálculo estratégico real: até aqui, se a defesa concordava com a sentença (ou decidia não recorrer por avaliação de risco) e só o MP recorria pedindo aumento de pena, a defesa ficava sem instrumento formal para reagir dentro daquele mesmo recurso — precisava esperar o resultado e, se piorasse, buscar via própria (o que custa tempo e às vezes já em fase recursal adiantada). Com a apelação adesiva reconhecida, a defesa pode se resguardar dentro do próprio prazo do recurso do MP, sem abrir mão da avaliação inicial de não recorrer isoladamente.
Ementa completa
AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL Nº 3271753 - SC (2026/0201068-8) RELATOR: MINISTRO RIBEIRO DANTAS
DECISÃO
Trata-se de agravo (e-STJ, fls. 833-839) contra decisão de fls. 826-827, que inadmitiu recurso especial interposto por ANDREZA CRISTINA FRANCIONI, com fundamento no artigo 105, inciso III, alínea "a", da Constituição da República, em relação a acórdão proferido pelo TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SANTA CATARINA (e-STJ, fls. 772-783).
A Defesa sustenta que a petição delineou de maneira precisa a controvérsia jurídica e enfrentou diretamente os fundamentos do aresto recorrido, inexistindo deficiência argumentativa, motivo pelo qual não incide o óbice da Súmula 284 do Supremo Tribunal Federal (e-STJ, fls. 836-838).
No apelo extremo inadmitido, aponta violação aos arts. 3º e 581, inciso XV, do Código de Processo Penal; bem como ao art. 997 do Código de Processo Civil. Pleiteia o reconhecimento da negativa de vigência à norma processual penal, argumentando que o ato de primeiro grau responsável por deixar de receber a apelação adesiva configura hipótese de denegação do direito de recorrer, o que autorizaria a interposição de recurso em sentido estrito. Defende a possibilidade de aplicação subsidiária da legislação processual civil ao rito penal, especificamente do seu artigo 997, para legitimar o manejo da referida modalidade recursal na esfera criminal, sob a justificativa de que não haveria incompatibilidade com os princípios norteadores da matéria.
Requer a reforma do julgado que não conheceu da insurgência em sentido estrito, a fim de determinar o regular recebimento e processamento da apelação subordinada.
Instado, o recorrido apresentou contrarrazões (e-STJ, fls. 819-821). O apelo nobre foi obstado na origem (e-STJ, fls. 826-827), seguindo-se a interposição do presente agravo (e-STJ, fls. 833-839). Remetidos os autos a esta Corte Superior, o Ministério Público Federal manifestou-se pelo não conhecimento da impugnação e, subsidiariamente, pelo improvimento da pretensão especial (e-STJ, fls. 889-896).
É o relatório. Decido.
O agravo impugna adequadamente os fundamentos da decisão agravada, devendo ser conhecido. Passo, portanto, ao exame do recurso especial propriamente dito.
A ré restou condenada como incursa no art. 33, caput, da Lei n. 11.343/2006, à pena de 5 anos de reclusão, em regime inicial semiaberto, além do pagamento de 500 dias-multa. Em sede de apelação, a reprimenda sofreu redimensionamento para 6 anos e 8 meses de reclusão, em regime inicial fechado, e 666 dias-multa.
A questão jurídica criminal central a ser dirimida consiste em definir se existe previsão legal para a interposição de recurso adesivo no processo penal, mediante a incidência subsidiária do diploma processual civil, e se o ato responsável por obstar tal insurgência desafia recurso em sentido estrito, com fulcro no artigo 581, inciso XV, do Código de Processo Penal.
O Tribunal de origem, ao julgar a carta testemunhável, manifestou-se nos seguintes termos (e-STJ, fls. 780-781): "Ocorre que a hipótese legal invocada não se ajusta ao caso. O inciso XV do art. 581 refere-se exclusivamente à apelação penal prevista no art. 593 do Código de Processo Penal, não alcançando recurso adesivo, modalidade inexistente no processo penal. A decisão combatida não denegou apelação, mas apenas deixou de receber um recurso inadmissível por absoluta ausência de previsão legal. [...] A carta testemunhável, por sua vez, somente se presta a garantir a remessa de recurso cujo cabimento seja possível em tese, mas cujo processamento tenha sido indevidamente obstado. No caso concreto, o recurso que se pretendia ver admitido, seja o adesivo, seja o próprio recurso em sentido estrito, não possuía cabimento jurídico."
A tese defensiva merece prosperar.
Embora o Código de Processo Penal não preconize expressamente o cabimento do recurso adesivo, a Quinta Turma desta Corte Superior firmou o entendimento de que a sua interposição deve ser admitida no direito processual penal em favor da defesa. Tal admissão decorre da aplicação analógica do regramento processual civil (art. 997, § 2º, do Código de Processo Civil), expressamente autorizada pelo art. 3º do Código de Processo Penal. A sistemática adesiva não consubstancia um recurso novo, mas apenas uma forma distinta de interposição de recursos já existentes, não havendo incompatibilidade com os princípios do processo penal quando manejada para resguardar os interesses do réu diante de sucumbência recíproca.
Nesse contexto, ao assentar que a apelação adesiva é modalidade inexistente no processo penal e, com base nisso, obstar o seu processamento, o Tribunal de origem divergiu da jurisprudência deste Superior Tribunal de Justiça.
Reconhecida a viabilidade jurídica da apelação adesiva defensiva, a decisão de primeiro grau que recusa o seu recebimento equipara-se à denegação da apelação, hipótese que desafia o recurso em sentido estrito, nos exatos termos do artigo 581, inciso XV, do Código de Processo Penal.
Ante o exposto, com fundamento no art. 253, parágrafo único, II, "c", do RISTJ, conheço do agravo para dar provimento ao recurso especial, a fim de reconhecer o cabimento da apelação adesiva defensiva e determinar que o Tribunal de origem proceda ao regular juízo de admissibilidade do recurso, afastado o óbice da ausência de previsão legal.
Publique-se. Intimem-se.
Brasília, 02 de julho de 2026. Ministro Ribeiro Dantas — Relator
Como citar este julgado
NUNES, Thiago. STJ admite apelação adesiva no processo penal — novidade que muda o cálculo de recorrer ou não. Blog Thiago Nunes Advocacia, Maceió. Disponível em: https://blog.thiagonunes.app.br/posts/apelacao-adesiva-penal/. Acesso em: 27/07/2026.